Barcelona 20


Vou contar pela primeira vez um episódio que esteve na génese do processo de avaliação de desempenho dos professores. O secretário de estado, Valter Lemos, que eu conheço desde os tempos em que estudámos juntos na Boston University, já lá vão 24 anos, pediu-me para reunir com ele com o objectivo de o aconselhar nesta matéria. Tenho de confessar que fiquei admirado com o conhecimento profundo e rigoroso que Valter Lemos mostrou ter da estrutura e da organização do sistema educativo português. Enquanto estudante, habituara-me a ver em Valter Lemos um aluno brilhante e extremamente trabalhador, qualidades que mantém passados tantos anos. No início, fui um entusiasta da avaliação de desempenho dos professores pois considerava que manter o status quo era injusto para os professores mais dedicados e competentes. Nessa altura, eu encarava a avaliação dos professores como um factor de diferenciação que pudesse premiar os melhores e incentivar os menos competentes a melhorarem o seu desempenho. Fiz algumas reuniões de trabalho com a equipa técnica do ME e logo me apercebi de que a Ministra da Educação estava a engendrar um processo altamente burocrático, subjectivo, injusto e complexo de avaliação do desempenho que tinha como principal objectivo domesticar a classe e forçar a estagnação profissional de dois terços dos docentes. Ao fim de duas reuniões, abandonei o grupo de trabalho porque antecipava o desastre que estava a ser criado. Nas reuniões que eu tive com a equipa técnica do ME, defendi a criação de fichas simples, com itens objectivos, sem a obrigatoriedade da assistência a aulas, a não ser para os casos de professores com risco de terem um Irregular ou um Regular, e com um espaçamento de três anos entre cada avaliação. Hoje, passados três anos, considero que se perdeu uma oportunidade de ouro para criar uma avaliação de desempemho dos professores realmente objectiva, justa, simples e equilibrada. Em vez disso, criou-se um monstro que vai consumir milhões de horas de trabalho nas escolas e infernizar a vida de muitos professores, roubando-lhes a motivação e a energia para a relação pedagógica e a preparação das aulas.

9 comentários:

  Fátima André

7 de Fevereiro de 2008 20:22

"Em vez disso, criou-se um monstro que vai consumir milhões de horas de trabalho nas escolas e infernizar a vida de muitos professores, roubando-lhes a motivação e a energia para a relação pedagógica e a preparação das aulas."

Esta afirmação diz tudo o que penso sobre este processo realmente monstruoso e sem qualquer tipo de benefícios, nem para o desenvolvimento profissional, nem para o efectivo sucesso educativo dos alunos.
Aliás, acrescento à afirmação do Ramiro, roubou-me o resto do tempo que ainda tinha disponível para ler, estudar, investigar...
Dedico-me agora a futilidades que não nos vão levar a lado nenhum... (inventar grelhas complexas, definir pseudo-indicadores de medida de parâmetros que à partida não são objectivos ou mensuráveis... e falam-nos de rigor, clareza, tenham santa paciência quem manda, mas este processo só nos pode conduzir à beira do abismo se é que não estamos lá... mas como eu sou optimista ainda acredito nos professores, não nesta tutela.

  Kubiko

27 de Fevereiro de 2008 20:29

De forma objectiva Ramiro Marques coloca os pontos nos "is" e revela os verdadeiros propósitos para esta trapalhada toda, nada que já não soubessemos, mas é óptimo ouvir dos próprios intervenientes a revelação deste embuste.

Pelo traço de honestidade raro, o meu sentido reconhecimento, Ramiro Marques!

  Pedro Nunes

28 de Fevereiro de 2008 00:03

Quero felicitá-lo pela forma como desmascara este processo de avaliação.
Nós nas escolas sentimos que se adivinhava algo de mau e no fim de cada ano lectivo dizia-se que para o próximo ia ser pior.
No entanto teve um aspecto muito positivo foi abanar com a classe docente, muito adormecida e criar um sentimento de indignação e de união muito fortes.
Um abraço,
Pedro Nunes

  Cêbijux

29 de Fevereiro de 2008 13:05

Eu concordo com tudo o que disse, e felicito-o por nos contar este episódio.
Também eu conheço o senhor Valter Lemos e hoje até tenho vergonha de dizer que fui aluna dele na ESE de Castelo Branco. Como é possível que as pessoas mudem tanto de opinião!?!?!?!?!

  República Portuguesa

3 de Março de 2008 14:38

Passem os elogios iniciais a Valter Lemos (é a primeira vez que ouço alguém referir-se ao nosso querido secretário de estado como alguém trabalhador, é mais conhecida a sua faceta de absentista, mas o Sr. Ramiro lá terá as suas razões para dizer o que diz), é bom saber algumas estórias da génese do processo de avaliação que está em causa (depois dos comentários de Rebelo de Sousa, ontem à noite na RTP, cada vez mais acredito qua a nossa Marilu e o seu séquito são carne para canhão, e que já estão "vivos" à demasiado tempo).

  Anónimo

5 de Março de 2008 13:38

É pena é haver desistentes que vêm falar quando já é tarde...

  Paulo

10 de Março de 2008 16:22

Mas porque será que as aberrações são sempre anónimas???
Obrigado por nos elucidar Dr. Ramiro Marques...
Abraço,
Paulo

  Vitus Lamecus

4 de Abril de 2008 20:17

Elogiar um imbecil e um energúmeno que passa por ser "trabalhador e competente", é continuar a lamber as "botas" de um mal fadado absentista, faltista e adepto confesso, nas suas "aulas" (??), das classificações excelentes, atribuídas, depositadas, às meninas do politécico - meninas sortudas por poderem usar mini-saias despudoradas - não vá o diabo tecê-las e esse pseudo anglo-portuga manter o tacho no governo desgovernado...

  O. Pina

9 de Abril de 2008 13:55

Devias antes ter escolhido o nome de Vitus Badamecus.
Enquadrava-se melhor com o teu discurso.
Tratamento psiquiátrico, JÁ|

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